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Uruguaios tentam entender alta taxa de suicídios no país

No Uruguai, há um assunto em voga que intriga os estudiosos e preocupa as autoridades. Por que, em um país de relativa prosperidade, existem mais casos de suicídio do que em outras nações da América Latina?

A questão ganhou força depois que o governo uruguaio divulgou, recentemente, dados que mostram que o país tem uma taxa de 16,6 suicídios por 100 mil habitantes.

"Esse número coloca o Uruguai em primeiro lugar na taxa de suicídios, ao lado de Cuba, entre os países latino-americanos", explicou Hebert Tenenbaum, psicólogo e diretor do programa de saúde mental do Ministério de Saúde Pública do Uruguai.

"Trata-se de um problema muito grave", afirmou.

Tenenbaum disse que as autoridades estão tentando resolver o problema de diversas formas. No entanto, as motivações ainda são desconhecidas.

Grupos de risco

O assunto é uma questão dolorosa para o país de apenas 3,3 milhões de habitantes que geralmente figura no topo dos índices de desenvolvimento humano da América Latina, compilados pelas Nações Unidas.

Segundo um ranking divulgado neste ano pelo Legatum Institute, uma organização independente com sede em Londres, o país foi classificado como o mais próspero da região,.

Apesar disso e do boom econômico vivido nos últimos anos – com altas taxas de crescimento e baixo desemprego -, foram registrados 537 suicídios apenas em 2011, uma amostra de o que fenômeno permanece entranhado na sociedade uruguaia.

De acordo com dados oficiais, pessoas acima de 65 anos e adolescentes são o principal grupo de risco.

O número de homens que cometem suicídio é maior do que o de mulheres. A maior incidência também ocorre em cidades do interior do país.

O relatório revela ainda que o enforcamento é o método mais usado.

Tenenbaum explica que os suicídios acontecem com mais frequência em regiões rurais e menos urbanizadas.

Possíveis explicações

De acordo com o especialista, a ideia de depressão, isolamento e solidão está totalmente ligada às razões para o suicídio.

"Certamente há uma ligação entre a depressão não tratada e o suicídio", disse o psicólogo.

Apesar de a população acima de 65 anos ter crescido 14%, de acordo com o último censo uruguaio, não há apoio familiar e social para estas pessoas. Segundo especialistas, esse seria um dos motivos que explicariam por que os idosos pertenceriam ao grupo de risco.

Em 1990, o psiquiatra Federico Dajas diagnosticou o problema no país e passou a estudá-lo ostensivamente.

"Cientificamente, nunca conseguimos chegar a uma explicação concreta para este fenômeno", disse o médico.

Os estudos incluíram aspectos epidemiológicos, sociais, bioquímicos e psicológicos. Foi criada, inclusive, uma unidade de internação para o suicida em potencial, para que o assunto pudesse ser analisado in loco.

"Eu gostaria de ter encontrado uma resposta", disse Dajas, pesquisador-chefe do Instituto de Pesquisas Biológicas Clemente Estable.

De acordo com Dajas, a taxa de suicídios no Uruguai era estável durante o século 20, mas sempre foi maior do que em outros países da América Latina.

Para os especialistas, existem fatores específicos que podem agravar o problema em determinado momento. Durante a crise econômica de 2002, o número de casos aumentou para 20 suicídios por 100 mil habitantes.

Dajas especula que a situação esteja ligada ao fato de o Uruguai ser um "país transplantado", com uma grande parcela da população sendo descendente de imigrantes europeus. Segundo ele, isso poderia trazer "influências genéticas".

De acordo com o Eurostat, a taxa de suicídios no Uruguai é menor do que em países como a Finlândia e Eslovênia, mas maior do que Espanha e Itália, nações que contribuíram com a imigração para o Uruguai.

"Perfil suicida"

"Concluímos que é uma delicada e complexa soma de fatores sociais, familiares e pessoais", explicou Dajas.

O psiquiatra destacou a importância da criação de políticas abrangentes de prevenção, como o trabalho de colaboração com grupos de risco – jovens e idosos.

Para o psicólogo Claudio Danza, o suicídio entre jovens pode estar ligado à falta de perspectivas, de ideais e de projetos.

Suicídios são a segunda causa de morte entre os jovens, ficando atrás de acidentes de trânsito. No entanto, para estudiosos no assunto, as duas causas têm pontos em comum.

"Se um jovem dirige um carro potente a 160km/h, em uma avenida ou estrada, ele tem um comportamento suicida. São perfis muito semelhantes", afirmou Danza.

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11 de setembro de 1973: A tragédia chilena

Em 11 de setembro de 1973, as forças armadas chilenas e os Carabinieri (a polícia) realizaram um sangrento golpe contra o governo da Unidade Popular (UP), liderada pelo presidente Salvador Allende. O Palácio de la Moneda, sede do governo onde Allende se encontrava, é bombardeado e, após uma resistência débil ao ataque, Allende comete suicídio. Dezenas de milhares de ativistas foram presos nas fábricas e bairros operários e populares. Em Santiago, o Estádio Nacional de futebol é transformado em uma prisão gigante. Muitos presos são torturados e mortos.

Assim, terminou de forma trágica a experiência do "caminho chileno para o socialismo", baseado na alegada possibilidade de realizar a transformação pacífica do capitalismo ao socialismo por dentro das instituições e por meio de eleições burguesas, sem destruir o Estado burguês e suas Forças Armadas. De acordo com toda a experiência histórica e a teoria marxista, a "via pacífica ao socialismo" culminava numa via violentíssima ao regime semifascista liderado pelo general Augusto Pinochet.

Esta experiência começou no final de 1970 com a vitória do candidato presidencial Salvador Allende, da Unidade Popular - coligação do Partido Socialista (PS), o Partido Comunista (PC), Movimento de Ação Popular Unificado (MAPU) e o pequeno Partido Radical -, sobre os seus adversários do Partido Nacional (Jorge Alessandri) e da democracia cristã (DC - Radomiro Tomic). Allende havia conquistado 36,6% dos votos. O Congresso, após intenso debate, proclamou-o Presidente da República, com o apoio dos deputados da DC, e tomou posse em 24 de Novembro.

O processo chileno foi acompanhado com muita atenção por toda a esquerda mundial. Além disso, como não poderia deixar de ser, gerou intenso debate entre as diferentes correntes sobre seu caráter, o programa a ser implementado pelas organizações revolucionárias e suas perspectivas. Neste artigo, apresentamos a análise e as posições da corrente morenista, hoje representada pela LIT-QI, expressadas naquele momento pelas publicações do Partido Socialista dos Trabalhadores (PST) da Argentina e um pequeno núcleo de militantes morenistas no Chile.

Contexto internacional

Para entender esses debates, é necessário considerar o contexto internacional em que se deu o processo chileno e como isso influenciou o país.

Desde o final da Segunda Guerra Mundial, o imperialismo norte-americano desenvolveu uma colonização ofensiva na América Latina, iniciado já no final do século XIX, para assegurar e consolidar o subcontinente como seu "quintal". No Chile e na Argentina, esta ofensiva havia sido postergada em relação ao resto do subcontinente porque ambos os países eram dominados pela Inglaterra, que retrocedia como potência mundial.

Esta penetração dos EUA provocava, junto ao desenvolvimento de novos setores da economia e o declínio de outros, mudanças estruturais e políticas na burguesia nacional. Isso explica por que a burguesia chilena estava dividida em dois partidos: os antigos setores, mais ligados ao latifúndio, permaneceram no Partido Nacional (PN), enquanto os novos, associados ao desenvolvimento capitalista recente, formavam o Partido Democrata Cristão (DC).

Ao mesmo tempo, a ofensiva norte-americana causava dois processos em vários países, muitas vezes combinados. Por um lado, um ascenso das massas contra as consequências da pilhagem imperialista, e por outro, uma pequena resistência de setores burgueses que queriam melhorar algumas condições de sua própria submissão.

Como parte da "guerra fria" e da política externa do "anticomunismo" travada pelos governos dos EUA no pós Segunda Guerra Mundial, quando o processo de massas ameaçavam sair do controle ou quando o imperialismo sentia seus interesses ameaçados, golpes sangrentos foram perpetrados, como na Guatemala, em 1954, na Argentina, em 1955 ou no Brasil em 1964.

No momento em que se desenvolve o processo da Unidade Popular, vivia-se importantes processos de ascendo das massas no Chile (desde o governo democrata-cristão de Eduardo Frei), Bolívia, Argentina e Uruguai.

A divisão da burguesia chilena

A verdade é que, já antes da UP assumir, a burguesia chilena estava dividida ante o processo de ascenso e esta divisão foi mantida por um bom tempo, em relação à política contra o governo Allende. Esta divisão ficou patente em vários fatos:

· A reforma agrária aplicada pelo governo Allende foi baseada numa lei já aprovada pelo governo Frei.

· A divisão do PN e da DC nas eleições de 1970, que levaram ao triunfo de Allende como a primeira minoria.

· O apoio de deputados da DC no Congresso para que Allende assumisse a presidência.

· O apoio de deputados de Washington às leis de nacionalização da mineração e dos bancos.

É verdade que a DC, uma vez que, como vimos, tentava negociar um espaço maior com o imperialismo, tratava de dar um "abraço de urso". Sua política destinava-se a manter o governo da UP no âmbito das instituições burguesas, esperando seu desgaste eleitoral. O governo de Allende respondeu com o "respeito pelas instituições" e, neste sentido, a política da DC foi bem sucedida. O que queremos destacar é que é impossível entender o curso do processo chileno de 1970-1973, sem compreender que, por todo um período não foi apenas tolerado, mas, mesmo apoiado por um setor significativo da burguesia chilena. Ao mesmo tempo, a mudança de política da DC para a direita e seu acordo com o PN, ocorrido em 1972, é também um elemento muito importante para entender a radicalização e a polarização crescentes que o processo foi adquirindo.

Por sua vez, o imperialismo dos EUA sempre teve uma profunda desconfiança com o governo Allende e considerou que a nacionalização do cobre e dos bancos feriu seus interesses. Desde o início, teve uma política muito mais agressiva, com o boicote promovido pela administração de Richard Nixon, mediante a negação de créditos e os pedidos de embargo ao cobre chileno. Logo levou em conta, como uma das hipóteses possíveis, um golpe de Estado que envolveu na sua preparação a CIA e empresas norte-americanas, como a gigante das comunicações ITT. Portanto, o PN do Chile, refletindo sua maior ligação ao imperialismo, teve desde o início uma política mais agressiva contra o governo da UP.

Caracterização do governo

Neste contexto, um dos grandes debates que ocorreram na esquerda da América Latina e mundial foi sobre a caracterização do governo Allende e a política a se ter frente a ele. Para os PCs e outras correntes, tratava-se de um "governo revolucionário" para fazer avançar o "caminho chileno para o socialismo" e, portanto, a linha foi o apoio incondicional. A Esquerda Socialista chilena (tendência radicalizada dentro do PS) caracterizou-o como "reformista", uma categoria sem definição de classe, que a levou a oscilar entre a crítica política e apoio. Inicialmente, a maioria das correntes ultraesquerdistas chamou-o de "burguês" (o que estava correto) e chamou a combatê-lo como qualquer outro governo desse tipo (que, em geral, também estava correto). Mas eles não consideravam as profundas contradições que surgiram na realidade e na consciência das massas, que veremos a seguir e que exigiam a formulação de táticas especiais. Por outro lado, mais tarde, várias correntes ultraesquerdistas mudaram sua posição e capitularam, como foram os casos do Movimiento de Izquierda Revolucionario chileno (MIR) e do Exército Revolucionário do Povo (ERP) da Argentina.

Por sua vez, a corrente morenista caracterizava que o conteúdo do governo de Allende era análogo ao dos movimentos e frentes nacionalistas burgueses que já existiam em outros países latino-americanos, como o peronismo na Argentina, que basicamente expressam a intenção de um setor da burguesia de negociar um espaço maior com o imperialismo. Assim, adotou algumas medidas "progressistas", tais como a nacionalização da mineração e dos bancos, a tíbia reforma agrária ou o incentivo ao consumo popular. Mas ele fez isso sem quebrar os limites do Estado burguês e do capitalismo. Pelo contrário, manteve-se estritamente dentro deles e evitava a todo custo que a mobilização das massas superasse esses limites.

No entanto, por ser um processo que estava "num período de intensificação profunda da luta de classes e de ascenso geral" (Ernesto Gonzalez, Onde vai o Chile?), ao contrário das frentes ou movimentos nacionalistas burgueses clássicos, não foi a burguesia que assumiu claramente a liderança, mas foram os partidos operários e de esquerda que desempenharam um papel de direção. Isso lhe dava características semelhantes às "frentes populares", governos burgueses surgidos na Europa na década de 1930, nos países imperialistas, analisados por Trotsky como "a penúltima trincheira contra a revolução socialista”. Estas características frentepopulistas e kerenskistas (semelhante ao governo de Alexander Kerensky na Rússia em 1917, antes da Revolução de Outubro) foram acentuadas com a radicalização do processo chileno.

Desta caracterização - um governo nacionalista burguês - a linha política central para os trotskistas é clara: por ser um governo burguês, não poderia ser dado nenhum apoio e, desde o início, devia-se fazer oposição de esquerda a ele. Mas, para desenvolver táticas específicas desta linha central, era necessário levar em conta duas contradições muito profundas que ocorreram na realidade e na consciência das massas.

A primeira é que, apesar de ser um governo burguês, os trabalhadores e as massas consideravam-no "seu" governo. Por isso, em muitos casos, por um período inteiro e enquanto as massas fizessem sua experiência, a tática para chamar a mobilização em massa devia ser formulada na forma de "exigências" ao governo ( que expropriasse as indústrias que desabastecessem, que se aplicasse uma reforma muito mais radical, que punisse aqueles que preparavam o golpe militar, que armasse os trabalhadores para se defender, etc.). Era claro que essa tática tinha o objetivo de melhor promover a mobilização independente das massas, para acelerar sua experiência com o governo e quebrar seus apelos para a passividade e a disciplina (implementados, na base, com mão de ferro pelo PC). A segunda é que, apesar de também ser um governo burguês, que foi inicialmente "tolerado", o imperialismo e grande parte da burguesia chilena não o consideravam como "seu" governo, atacavam-no e até mesmo prepararam um golpe. Isso exigia convocar mobilizações para defender as "medidas progressistas" - que foram atacadas bem como o próprio governo - frente ao golpe que estava sendo preparado.

Três anos de UP

Os quase três anos do governo da UP tiveram características diferentes. O primeiro ano (1971) foi, em grande medida, seu "período de glória". Ele nacionalizou a mineração e os bancos, foram expropriadas várias empresas e se criou a "área social" da economia, a reforma agrária foi iniciada e, graças à capacidade produtiva ociosa e o aumento do consumo gerado pelo maior poder aquisitivo da população, o PIB cresceu 8%, com inflação baixa. Nas eleições municipais, os candidatos da UP conseguiram quase 50% dos votos. Parecia que a "via pacífica ao socialismo" era possível. No entanto, já começam a se manifestar alguns problemas: o déficit fiscal passou de 3,5% para 9,8% do PIB, as exportações caíram e a balança comercial tornou-se deficitária. Além disso, os primeiros sinais de escassez de produtos básicos, como açúcar, também começaram.

O segundo (1972) é um ano de transição. A DC começa a aproximar-se do PN e a endurecer sua posição contra o governo. A extrema-direita começa a formar os grupos armados Pátria e Liberdade para resistir à expropriação e à reforma agrária e para atacar as manifestações. Acentua-se a escassez e, em outubro, os proprietários de caminhões lançam uma paralisação que se transforma num verdadeiro locaute patronal de todo o país, com clara dinâmica golpista, que finalmente é quebrado pelos trabalhadores e pela mobilização popular.

Em 1973, a patronal, a direita e o imperialismo jogam-se abertamente na preparação do golpe. Como parte dessa preparação, realiza-se um trabalho intenso sobre os oficiais, a suboficialidade e a base das forças armadas para ganhá-los para seu campo. O levantamento de um regimento de blindados de Santiago, conhecido como o "tancazo" foi, nesse sentido, um ensaio do golpe de 11 de setembro.

A classe operária …

À medida que a situação ficava polarizada, as mobilizações cresciam e a classe operária e o povo radicalizavam seus métodos. Enormes manifestações foram feitas (em Santiago, chegaram a reunir-se um milhão de pessoas), quebrou-se o locaute patronal de outubro de 1972 assumindo-se o controle das principais fábricas e canteiros de obras, as fábricas e bairros foram defendidas com armas (inclusive com a fabricação de armas caseiras) e foram criados embriões de duplo poder, como os cordões industriais (o mais importante deles, o Vicuña Mackenna, coordenando 350 empresas nos subúrbios de Santiago), sargentos e marinheiros de Valparaíso e Concepción denunciaram a ação dos golpistas e pediram apoio ao governo e seus partidos para combatê-los.

Por outro lado, frente a esta situação, em vez de incentivar a mobilização e a luta contra a burguesia e a direita, o governo da UP e os partidos da coalizão rumavam cada vez mais para a direita. Eles buscaram um acordo com a DC e para este fim, pararam a reforma agrária e a expropriação de empresas (inclusive defendiam devolver algumas já expropriadas). Basicamente, frente ao golpe que estava chegando, incluíram militares no gabinete (como os generais Pinochet e Urbina, que iriam desempenhar um papel chave no golpe), pediram "calma" para "aguardar instruções" e para confiar nas Forças Armadas golpistas.

Mas se a classe trabalhadora e o povo do Chile aumentaram seu nível de mobilização e radicalizaram suas ações não conseguiram dar o passo para quebrar e vencer o governo e suas direções. Podemos dizer que iam nessa direção e que o melhor da vanguarda começava a tirar conclusões nesse caminho. Neste sentido, é instrutiva a entrevista de Cruces Armando, jovem operário, Presidente do cordão industrial de Vicuña Mackenna e militante da esquerda do Partido Socialista (publicada em Avanzada Socialista72, em agosto de 1973, reproduzida no artigo “O fim da via pacífica”). Mas esse processo foi interrompido pelo golpe de Pinochet.

… E suas direções

Por não chegar a romper, a classe operária e do povo chilenos ficaram atados à política de suas direções e estas os conduziram a uma terrível derrota. Este aspecto, a política de suas direções é fundamental para compreender a tragédia chilena e a terrível derrota de 11 de setembro.

A principal responsabilidade foi do Partido Comunista, por ser a organização mais forte, mais organizada e disciplinada, e por controlar o aparato burocrático da central operária (CUT). Ele defendeu o governo e sua política de "calma" e confiança nas forças armadas até o fim. Neste sentido, é essencial ler a entrevista com seu secretário-geral, Luis Corvalán, reproduzida no artigo "O fim da via pacífica”. Com esta política, procurou sufocar e controlar com mão de ferro a mobilização independente das massas e, essencialmente, isolar o desenvolvimento dos cordões industriais e transformá-los em corpos secundários, disciplinados à CUT.

A Esquerda Socialista, embora tivesse posições mais críticas, e fosse composta de muitos dos melhores elementos da vanguarda, como o já citado Cruces, nunca atuou como uma alternativa real nem se construiu uma organização de combate, capaz de disputar a direção. Desta forma, acabou sendo apenas uma “válvula de escape” para conter muitos lutadores honestos.

O MIR, entretanto, como já dissemos, passou de uma política ultraesquerdista e sectária à capitulação, de fato, ao governo (a guarda pessoal de Allende, que o acompanhava no dia do golpe, estava integrada por militantes do MIR). É verdade que organizou ações e protestos independentes que lhe rendeu um forte peso em Concepción. Mas, além da ambiguidade geral da política, cometeu dois erros graves em questões fundamentais. Frente aos cordões industriais (os embriões reais de poder dual existentes) propôs a construção de "corpos fantasmas": as coordenações regionais. E assim terminou por coincidir com o PC na sua política de restringir o desenvolvimento dos cordões e de submetê-los à CUT. Em relação ao golpe que se avizinhava, desenvolveu uma miniguerra de aparatos com Patria y Libertad. Mas, frente ao relato de suboficiais e marinheiros de Valparaíso e Concepción, manteve o mesmo silêncio que o governo e os partidos da UP. Assim, permitiu que eles fossem presos e torturados e matou no berço a possibilidade de desenvolvimento de um embrião de poder dual e de divisão nas forças armadas.

O que faltou no Chile?

O que fez falta no Chile para que um grande processo de ascenso e mobilização das massas avançasse até uma revolução socialista? A resposta, em si, é simples: Faltou um partido revolucionário que defendesse um programa de transição para que a movilização de massas avançasse desde a luta por suas reivindicações mais sentidas até a tomada do poder pela classe operária e o povo. Um programa que fossse implementado para cada situação e circunstâncias do processo, como fizeram os bolcheviques de Lênin e Trotsky na Rússia, entre fevereiro e outubro de 1917.

Os eixos do programa foram esboçados em diversas publicações do PST argentino e defendidos por um punhado de militantes morenistas no Chile: impulso à mobilização autoderminada das massas, independente do governo, começando por suas necessidades básicas e as contradições de sua consciência; uma política de exigências à CUT e aos partidos de esquerda, promoção e desenvolvimento do poder dual existente, os cordões industriais; contra golpe: armamento operário para enfrentar a reação e trabalhar na base e na suboficialidade das Forças Armadas para dividi-la.

Mas este programa e orientação não passavam de propaganda, à medida que não havia um partido revolucionário que pudesse aplicá-los. Postulava-se construir este partido revolucionário, com o potencial de influenciar a realidade, à medida que avançavam as rupturas dos melhores setores das organizações de esquerda de massas.

E aqui surge outra conclusão muito importante do processo chileno: na grande maioria dos casos, os processos revolucionários não dão o tempo suficiente para se construir esse partido, para que amadureçam as condições que o façam surgir com peso e que impeça as antigas direções de manter seu controle. É o que ensina todo o processo histórico e muitas derrotas. Por isso, é necessário iniciar antes as bases de sua construção para que, quando o processo revolucionário explodir, haja um embrião sólido desse partido. Em fevereiro de 1917, os bolcheviques eram uma minoria em comparação com as correntes da esquerda reformista (mecheviques e SR). Mas já tinha alguns milhares de quadros organizados e educados que foram capazes de lutar e ganhar a direção. Sem essa organização, muito possivelmente, não teria havido a Revolução Russa. Essa é a tarefa à qual está empenhada hoje a LIT-QI: a construção desses embriões de partidos revolucionários em cada país para evitar a repetição de novas tragédias como a do Chile.

Quase 40 anos depois, nós acreditamos que esse ensinamento é mais oportuno do que nunca e essa página especial de nosso site destina-se a transmitir às novas gerações esse balanço.

Ela contém três materiais: "Para onde vai o Chile?", de Ernesto González (Revista de América, 10 de maio de 1973), "O fim da via pacífica", de Antenor Alenxandre ( Revista de América, 11 de novembro de 1973) e um artigo que inclui o testemunho pessoal de Waldo Mermelstein, militante brasileiro fundador da corrente morenista no Brasil, que estava no Chile durante o governo da Unidade Popular.

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Honduras Privatiza cidades para ‘combater desigualdade’

“Esses territórios pertencem ao povo Garifuna e não podem ser entregues ao capital estrangeiro em um gesto de puro colonialismo, idêntico àquele que prevalecia em Honduras na época em que o país era chamado de república das bananas”, afirmam grupos civis e movimentos indígenas

Classificado pelo governo do presidente Porfirio Lobo como “o mais importante projeto do país em meio século”, Honduras assinou nesta quinta-feira (06/09) um memorando no qual aprova a privatização de três cidades. Com agentes de segurança, sistema tributário e legislação própria, elas já estarão abertas para investimentos de empreendedores em um prazo máximo de seis meses. 

A ideia é que as chamadas “cidades modelo” possuam poderes Executivo, Legislativo e Judiciário totalmente desvinculados do governo hondurenho. Dessa forma, suas administrações ganham autonomia suficiente para ratificar tratados internacionais, firmar parcerias bilaterais e estabelecer sua própria política imigratória. 

Um grupo de investidores estrangeiros viajou a Tegucigalpa para participar da cerimônia e também assinou o documento. O argumento do governo é de que esta é uma forma de fortalecer a infra-estrutura nacional, bem como o combate à corrupção e ao tráfico de drogas. “Isso tem o potencial transformar Honduras em uma máquina de dinheiro, é um instrumento de desenvolvimento típico de países de primeiro mundo”, disse à AFP Carlos Pineda, presidente da Comissão para a Promoção de Parcerias Público-Privadas de Honduras.

De acordo com Juan Hernandez, presidente do Congresso hondurenho, o grupo de investimentos MGK já se comprometeu a injetar inicialmente 15 milhões de dólares para a construção de infra-estrutura básica na primeira cidade modelo, na região da costa caribenha. A expectativa do parlamentar é a de que esta cidade crie cerca de cinco mil postos de trabalho em um primeiro momento e mais de 20 mil no futuro. Ele também revelou à AFP que a Coreia do Sul já depositou nos cofres hondurenhos quatro milhões de dólares voltados para estudos de viabilidade das obras.

“O futuro se recordará de hoje como o dia em que Honduras começou a crescer”, disse Michael Strong, CEO do grupo MKGroup em meio à solenidade de ratificação do memorando. “Nós acreditamos que esta será uma das transformações mais importantes do mundo, pela qual Honduras acabará com sua pobreza e criará milhares de empregos”, concluiu.

Não é o que pensam grupos civis e organizações indígenas que classificam o projeto de Porfírio Lobo como uma “catástrofe”. Ao lado do local onde será instalada a primeira cidade privada do país, vive uma grande comunidade de indígenas Garifuna que se opõe ao empreendimento. “Esses territórios pertencem ao povo Garifuna e não podem ser entregues ao capital estrangeiro em um gesto de puro colonialismo, idêntico àquele que prevalecia em Honduras na época em que o país era chamado de república das bananas”, disse Miriam Miranda, presidente da Organização Fraternal dos Negros de Honduras.

Oscar Cruz, ex-promotor constitucional, protocolou uma moção junto à Suprema Corte ainda em 2011 para alertar sobre a inconstitucionalidade do projeto. “Essas cidades pressupõem a criação de estados dentro do estado, uma entidade comercial com poderes de estado fora da jurisdição do governo”, explica Cruz. A instância judicial máxima de Honduras não concordou com seus argumentos.

“Isso violará os direitos de cada cidadão porque significa a concessão de parte de nosso território a uma cidade que terá sua própria polícia, seu próprio Poder Judiciário e seu próprio sistema tributário”, disse ao jornal britânico The GuardianSandra Marybel Sanchez, parte de um grupo de manifestantes que tentam apelar à Suprema Corte para reverter a decisão.


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Professores de Buenos Aires fazem greve contra censura ideológica da prefeitura

Protestos são contra criação de um disque-denúncia e punição a docentes que fizeram paródia de Macri (prefeito de Buenos Aires)

“Temos que fazer alguma coisa com a escola pública, hein?”, diz um hipotético prefeito de Buenos Aires para um suposto secretário de Educação, que responde: “Então vamos desprestigiar os docentes e a escola pública!”. A cena se passa em uma encenação teatral realizada em março por professores de uma escola primária da capital argentina.

O problema é que a representação foi gravada em um celular e postada na internet, provocando uma polêmica que resultou na punição de seis educadores e, em resposta, uma greve de professores de 24 horas nesta sexta-feira (31/08). Segundo os sindicatos, a paralisação teve uma adesão de 80%,e muitos manifestantes já se encontram protestando em frente à Prefeitura. 

Apesar da baixa qualidade da gravação, pode-se ver um trecho da encenação em que os “atores” abordam o rumo das políticas públicas para a educação municipal. “Se fosse por mim, eu privatizaria tudo como no Chile. Ou daria uma bolsa de estudos a cada um destes alunos para que vão a uma escola privada”, afirma o intérprete do prefeito portenho Mauricio Macri, reeleito no ano passado e citado ironicamente como “Mauri”.

Outro ponto abordado na “peça” é a redução de investimentos no sistema público de educação e a transferência de recursos para as instituições privadas. “Já tiramos os subsídios para a infra-estrutura do sistema público repassando para o privado. Não sei o que mais [fazer], pense você”, diz o “secretário”. Essa reclamação se dá pelo fato de que, segundo a Asap (Associação Argentina de Orçamento e Administração), no primeiro trimestre de 2011, a infra-estrutura escolar pública recebeu 6,8% do orçamento da prefeitura, enquanto os fundos destinados ao setor privado chegaram a 26,6%.

A resposta de Macri à encenação foi anunciar, na última quarta-feira (29/08), o afastamento da diretora, da vice-diretora, da secretária, de dois docentes e de um bibliotecário de seus cargos, além da abertura de uma investigação preliminar sobre o envolvimento dos seis profissionais na atuação. Na resolução, a prefeitura considera que as suspensões são justas por que os envolvidos “autorizaram a dramatização, não se manifestaram contrariamente a ela e inclusive participaram da mesma”.

De acordo com Carlos Oroz, secretário-geral da Ademys (Associação Docente de Ensino Médio e Superior), a greve está sendo realizada "em defesa da democracia, da pluralidade, da diversidade e contra a estigmatização por pensar diferente”. “Exigimos a imediata a restituição dos professores e o fim das investigações. Elas só poderiam ser abertas em casos de riscos à integridade física dos alunos ou dos bens da escola. A prefeitura está igualando este episódio a casos muito graves”, explicou ele à reportagem de Opera Mundi.

Em diversas aparições televisivas, o secretário de Educação, Estéban Bullrich, garantiu que a suspensão dos profissionais não se deve às críticas feitas à prefeitura, mas sim ao “mau comportamento". O chefe de gabinete da prefeitura, Horacio Rodríguez Larreta, também defendeu as sanções aos envolvidos na representação. “Quando a política mete a mão na educação, estamos em problemas”, afirmou, ressaltando que “é uma loucura que alunos da sexta série recebam doutrinamento político em vez de estar aprendendo ciências, computação ou língua estrangeira”.

Segundo Oroz, “o governo pode ou não gostar” da encenação, “mas o fato é que isso não pode levar a uma sanção”.

0800

Segundo Oroz, outro motivo para a paralisação é contra o lançamento de um disque- denúncia “para que os pais possam denunciar qualquer tipo de intromissão política nas escolas”.

O anúncio da disponibilização da linha telefônica gratuita foi feita depois de que alguns jornais locais noticiaram a existência de atividades educativas com uso do personagem de quadrinhos El Eternauta, criado por Héctor Oesterheld, integrante da organização guerrilheira Montoneros e desaparecido durante a ditadura argentina (1976-1983). A imagem do personagem atualmente é usada pela agrupação La Cámpora, formada por jovens kirchneristas, à qual se atribui a realização de atividades políticas nas escolas.

Na ocasião, Esteban Bullrich expressou ter “profunda preocupação com os atos de doutrinamento político que está sendo realizado nas escolas do país com o aval da senhora presidente [Cristina Kirchner]”. Em meio ao debate gerado pela instalação da linha telefônica, tanto na assembléia legislativa portenha como entre oposicionistas a Macri, o caso foi parar na justiça.

Alegando que a iniciativa remete a "práticas de perseguição política próprias de regimes ditatoriais, com as quais incentivavam os cidadãos a denunciar as expressões políticas de outros”, o Inadi (Instituto Nacional contra a Discriminação, Xenofobia e Racismo) solicitou a suspensão da medida nos tribunais.

O interventor Pedro Mouratian, do Inadi, disse que “é preciso abrir o debate sobre o estudo da teoria e a prática política nas escolas. Segundo ele, no entanto, a discussão não pode ser estabelecida “em um clima de censura e de perseguição como o que o sistema de denúncias da prefeitura propõe”, já que nada impede que este seja utilizado para “compilar informação sobre as afiliações [sindicais] ou opiniões de docentes, diretores e alunos”.

Em resposta, a juíza Elena Liberatori determinou, nesta quinta-feira (30/08), a proibição da utilização da linha, por considerá-la uma “perseguição política aos jovens e crianças, segundo as normas constitucionais que os protegem”, autorizando somente o uso para denúncias referentes a condutas condenadas pelo código penal. Por essa razão, a linha se mantém em funcionamento. 

A “perseguição ideológica” da prefeitura, segundo Oroz, é constante, não só contra professores como contra estudantes. Durante a ocupação de colégios no ano passado, por alunos que protestavam contra a ausência de manutenção da infra-estrutura das escolas, “a prefeitura pressionava a diretoria das escolas para que elaborassem uma lista com o nome dos alunos que realizavam os protestos e a entregassem à secretaria de Educação e à polícia, denuncia. “Não sabemos o que queriam fazer com esses dados”.

No caso da paródia, afirma o sindicalista, “os fatos mencionados são todos comprováveis, e, para isso, não houve nenhuma resposta da prefeitura”. “Eles falam do aumento da destinação orçamentária para subvencionar o salário de docentes das escolas privadas, facilitando a rentabilidade destas instituições, em detrimento do investimento nas escolas públicas. Algumas escolas que cobram 1.500 pesos de mensalidade recebem 70% de subsídio para o salário docente com recursos do Estado”, garante.

Para Pablo Imen, docente e especialista em Educação, é necessário recuperar o desenvolvimento da política educativa da prefeitura para entender que a paródia realizada pelos professores se inscreve como “uma verdadeira ação de resistência, pela defesa da escola pública frente a um poder político hostil”. Segundo ele, os secretários de Educação de Macri apresentam “denominadores comuns”, apesar os diferentes estilos na administração.

“O primeiro, Mariano Narodowksi, proibiu, em abril de 2008, que os docentes dessem declarações à imprensa quando os conflitos por infra-estrutura das escolas se intensificaram. Os alunos passavam frio no inverno [pela falta de gás ou aquecedores] e os tetos estavam caindo”, lembra. O segundo, Abel Paretini Posse, ficou no cargo por somente 15 dias devido “ao repúdio gerado por suas declarações públicas, que reivindicavam a ditadura e demonizavam os jovens”.

O atual secretário, na avaliação do especialista, impulsiona medidas tecnocráticas, como a avaliação dos professores, além de denunciar penalmente e elaborar listas negras com nomes de estudantes envolvidos em manifestações, instalar câmeras de filmagem nas escolas “apesar do repúdio das comunidades educativas”, impedir o desenvolvimento de jogos coletivos com a utilização do El Eternauta, “que propõe a busca de saídas coletivas para situações inesperadas”, e instalar uma linha para denúncias de “anomalias” nas instituições.

“Macri diz que é necessário acabar com a política de confrontos e de impugnação dos que pensam de maneira diferente. Mas seu governo expressa um caráter punitivo crescente, proibindo, denunciando, sancionando. A greve expressa um limite ao autoritarismo da prefeitura”, afirma Imen. Segundo ele, é válida a discussão sobre a pertinência da ação em âmbito escolar, se esta foi realizada em horário letivo. Mas, segundo ele, “o que não se pode fazer, é responder com a sanção de professores”.

Questionando a falta de diálogo e o caráter antidemocrático da medida, Imen acrescenta que “se alguém vai ensinar aos alunos como ser bons capitalistas, ou uma ONG vai ensinar amenidades, não colocam nenhum tipo de entraves. Mas se existe a proposta de trabalhar sobre valores, há problemas. E o que ainda é pior, é que incentivam que isso seja delatado, denunciado”, conclui. 


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Estudantes chilenos voltam às ruas e exigem ensino público, gratuito e de qualidade

Os estudantes chilenos, que protagonizaram uma forte mobilização em 2011 por educação pública, gratuita e de qualidade, estão de volta. Desta vez são os do ensino médio, que há duas semanas lideram nova luta marcada por repressão policial e que já culminou numa greve nacional nesta quinta-feira (23).

Protestos de rua foram o início de uma onda de ocupações e greves, principalmente em estabelecimentos mais tradicionais do estado que respondeu com forte repressão policial. Os jovens exigem um novo modelo educacional que reforce o sistema público.

Segundo matéria no El País, o movimento tem crescido de forma mais radical. Uma das principais líderes é Eloisa Gonzalez, porta-voz da Assembléia Coordenadora de Estudantes Secundários (ACES) que pediu um boicote às eleições municipais de outubro próximo e desafiou as autoridades e o presidente. “Nós iniciamos uma nova explosão social”, falou ao anunciar na segunda-feira a greve nacional desta quinta-feira.

Os estudantes da Universidade do Chile, a mais antiga do país, também paralisaram as atividades acadêmicas e ocuparam a universidade.

Em resposta a luta desses estudantes no ano passado, o governo ofereceu créditos mais baratos, mais bolsas de estudos e uma reforma tributária que está sendo discutida no Congresso, que procura arrecadar entre US$ 700 milhões e US$ 1 bilhão para a educação, mas nega as mudanças estruturais do sistema exigidas pelos estudantes. Por isso, a retomada da mobilização, além da reivindicação do fim do lucro existente em muitos centros particulares e dos altos custos das mensalidades, que devem pagar através de créditos do sistema financeiro.

Popularidade de cada um - A educação continua a ser uma das principais preocupações dos chilenos de acordo com a pesquisa do CEP (Centro de Estudos Públicos). O estudo indica que 12% da população acredita que o governo está atuando “muito bom e bom” na área da educação, e 57% acreditam que está atuando de forma “ruim e muito ruim.” A pesquisa revela que a confiança pública no movimento estudantil foi reduzida de 35% para 30% desde dezembro de 2011, mas a sua credibilidade é maior do que a do governo (23%), do Congresso (10%) e dos partidos políticos (6%).

O governo do presidente Sebastián Piñera, que tem sido marcado por essas mobilizações estudantis tem visto sua popularidade cair. Está em 27%, apesar do crescimento econômico de 5,5%, revela a pesquisa.

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Monsanto e o Golpe no Paraguai

(Matéria de 23 de Junho de 2012 )

 2012 - Senado do Paraguai destitui o presidente Fernando Lugo
O presidente do Paraguai Fernando Lugo acaba de ser destituído do cargo pelo Senado. Votaram a favor da destituição 39 senadores, enquanto outros quatro se declararam contra. Dois parlamentares estavam ausentes. O processo de impeachment do presidente paraguaio foi iniciado na última quinta (21).
Entre as razões apontadas pelos paralamentares que entraram com o pedido de impeachment estão a ligação de Lugo com movimentos sociais atuantes no campo e o conflito ocorrido em uma fazenda no Nordeste do país, no qual morreram 17 pessoas. “Os acontecimentos trágicos não podem ser caractrizados como um mau desempenho do presidente”, declarou o advogado Adolfo Ferreiro, um dos que representaram Lugo em sua defesa no Senado.

Lugo é acusado de instigar a invasão de terras no país. Os deputados também o acusam de submeter as forças de segurança a ordens dos movimentos sociais. Com isso, os parlamentares dizem que o presidente é incapaz de conter uma onda de violência no país.

2010 – Relembrando

Em meados de agosto o Serviço Nacional de Qualidade e Sanidade Vegetal e de Sementes (Senave) do governo paraguaio iniciou uma série de ações de fiscalização e destruição de lavouras ilegais de milho transgênico no país.

A primeira ação se deu numa propriedade no estado de Alto Paraná, onde foram destruídos 44 hectares de milho transgênico de propriedade de um agricultor “brasiguaio”, a 90 km da capital Ciudad del Este. O milho, que estava em ponto de colheita, foi totalmente triturado por um rolo-faca, de modo a inviabilizar seu uso como semente. A variedade Bt+RR (tolerante a herbicida e também tóxico a lagartas) havia sido contrabandeada do Brasil.

As ações continuaram ao longo da semana, resultando na destruição de mais de 100 hectares de milho ilegal.

Miguel Lovera
 A reação veio a galope. Logo foram publicadas reportagens com manifestos indignados de representantes do agronegócio paraguaio, criticando as ações e chamando de retrógrado o presidente do órgão, Miguel Lovera.

Alfredo Jaeggl
No auge dos protestos, por iniciativa do senador liberal Alfredo Jaeggli, o Senado paraguaio aprovou uma declaração ao Poder Executivo instando-o “a paralisar as intervenções do Senave com relação ao milho transgênico até que se atualize a normativa atual, conforme o desenvolvimento científico do produto” (em outras palavras, “até que o governo libere definitivamente o milho transgênico”).

Do outro lado, organizações camponesas também se manifestaram, prestando apoio ao Senave, argumentando quanto aos riscos do consumo do produto e em defesa da semente nativa. Pediram ainda que se declare “emergência fitossanitária” pelo descumprimento da legislação que proíbe expressamente o milho transgênico.

Em 28 de agosto, em seguida à manifestação do Senado, Lovera foi a público declarar que o órgão prosseguiria com a fiscalização e a destruição do milho ilegal. A declaração foi feita numa coletiva de imprensa logo depois de Lovera ter-se reunido com o presidente Fernando Lugo. Segundo Lovera, o presidente apoia o trabalho realizado pelo Senave e recomendou que ele “siga cumprindo a lei”, como fez até o momento.

A legislação paraguaia permite o cultivo de algumas variedades de soja transgênica, mas não de milho. Recentemente, entretanto, o Ministério da Agricultura do país publicou uma resolução declarando ser de interesse estratégico a experimentação com sementes de milho transgênico em território paraguaio, o que aconteceria sob a supervisão do Instituto Paraguaio de Tecnologia Agrária.

Esta semana, a Aliança pela Biodiversidade na América Latina e a Rede por uma América Latina Livre de Transgênicos enviaram uma carta aberta ao ministro da agricultura paraguaio, Enzo Cardozo, expressando profunda preocupação com relação à decisão, uma vez que existe vasta informação científica demonstrando que, após a introdução destas variedades no campo, torna-se impossível deter a contaminação genética das variedades convencionais, crioulas e tradicionais de milho, uma vez que trata-se de uma espécie de polinização aberta.

Nós brasileiros conhecemos bem esta história da “criação do fato consumado” e podemos imaginar as pressões que o governo do Paraguai está sofrendo no sentido de atropelar as avaliações de biossegurança e autorizar “na marra” as variedades transgênicas de milho.


2010

ASSUNÇÃO, Paraguai - "Em qualquer país civilizado moderadamente se você pulverizar seus pesticidas sobre as pessoas, você basicamente irá para a cadeia", disse Miguel Lovera, chefe da agência do Paraguai aplicação agrícola. "Neste país que não era o caso. Ela ainda pode ser o caso em muitos lugares no país que podem ser de pulverização em lugares errados, nas pessoas erradas, nos animais errados - mas nós estamos lá fora, para pôr fim a esta situação ".

Lovera está debaixo de fogo para a destruição da agência de 44 hectares de milho transgénico que estavam sendo cultivadas ilegalmente. Soja transgênica é atualmente a principal exportação do país, e vastas áreas da zona rural foram derrubadas pelos proprietários estrangeiros para abrir caminho para a cultura controversa, mas até agora a soja transgênica é o único permitido para a produção.




2011- MONSANTO

Com um território pouco maior que o estado do Mato Grosso do Sul e uma área agricultável de 850 mil hectares, o Paraguai é o maior cliente da Monsanto do Brasil e recebeu, apenas em 2011, mais de 177 mil sacas de milho em 41 processos de exportação. 
Pablo de La Fuente -
Líder de Negócios da
Monsanto no Paraguai
“O Paraguai se encaminha rapidamente em direção à biotecnologia e vai ficar atrativo não só para a Monsanto, mas para todas as companhias de milho. Aumentar nossa presença hoje, com a ajuda dos híbridos brasileiros, pode ser determinante para continuarmos crescendo e ganhando participação”, explica Pablo de La Fuente, líder de Negócios da Monsanto no Paraguai. O executivo lembra que o excelente volume exportado para o país se deu por conta da qualidade do portfólio brasileiro e à semelhança com clima e solo da região do Paraná. 

Com o apoio do resultado obtido com a comercialização dos produtos brasileiros, que chegam ao Paraguai por vias terrestres, o país inaugurou seu primeiro Centro de Distribuição. “Agora podemos receber as sementes em menos tempo, evitando o congestionamento do fim de ano nas alfândegas e garantindo a entrada mais rápida nas nossas lavouras”, cita de La Fuente.



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A luta na Argentina


Diante da crescente insatisfação popular frente à inflação, da queda dos salários e aposentadorias, das suspensões das atividades, do ressurgimento e subida do dólar paralelo e outros sintomas da entrada da crise da economia mundial no país, o governo de Cristina Fernández de Kirchner está fazendo os maiores esforços para manter sua popularidade.
Para isso trata fundamentalmente de se mostrar como defensora da soberania nacional, enfrentando as empresas e grandes patronais do campo. Começou fazendo duras declarações contra o envio de navio de guerra às Malvinas e contra a visita do “principezinho” [no caso o príncipe inglês]. Permaneceu com a posse de 51% das ações da YPF. Continuou com os aumentos de impostos aos patrões do campo na província de Buenos Aires. E agora propõe a “pesificação” com o “bloqueio” cambiário.
Assim como defendemos o direito da Argentina sobre as ilhas Malvinas, sobre o petróleo argentino, contra as multinacionais e o direito do estado argentino de se apropriar da renda do campo por intermédio dos impostos, defendemos também a moeda argentina como um instrumento fundamental de soberania nacional.


O que significa para o país perder o controle de sua moeda pode se ver com toda clareza no que acontece hoje com a Grécia e outros países europeus. Graças a sua permanência no euro, a economia grega está completamente dominada pelos grandes bancos alemães, franceses e norte-americanos.
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A partir da União Europeia, do Banco Central Europeu e do Fundo Monetário Internacional –conhecidos como a Troika–  funcionários nomeados pelas principais potências impõem à Grécia (assim como a Espanha, Portugal, Irlanda, Itália) planos de ajuste cada vez mais duros para pagar sua dívida pública. A Grécia necessita romper com o euro e voltar à sua moeda, o dracma, como um passo para recuperar o direito de decidir sobre sua economia.
Da mesma forma, a “pesificação” é necessária para defender a soberania argentina. A pergunta é se as medidas que impõe o governo kirchnerista defendem de fato a moeda nacional. Ou se, como no caso das Malvinas, o petróleo e os impostos ao campo, as medidas do governo são completamente insuficientes e não mudam realmente o fato de que nossa moeda, assim como nosso território, nosso campo, nossa economia, nossas finanças, estão em grande medida controladas pelo imperialismo e suas multinacionais.


A causa da “dolarização” da economia não é a cultura dos argentinos a respeito do dólar, como afirma Cristina. Suas verdadeiras e mais profundas causas são a dívida externa, o saque das multinacionais, dos bancos, do sistema financeiro e o ingresso da crise econômica mundial no país. O imperialismo e suas multinacionais não só querem que a crise seja paga pelos trabalhadores de seus próprios países. Querem também que a paguem os trabalhadores e os povos dos países semicoloniais e coloniais.
As medidas com as quais o governo procura controlar a venda de dólares à classe média nos bancos e nas casas de câmbio e que travam todas essas operações, significam muito pouco frente às imensas somas de dinheiro que saem do país para pagar a dívida externa, para as finanças e para o comércio exterior, e das que saem como envio de lucros das empresas multinacionais que saqueiam nossos recursos e produzem no país.


Apesar de terem passados todos os prazos fixados para a moeda local – como prometeu fazer a presidenta com seus três milhões de dólares acumulados – e as propriedades se venderam em pesos, continuaria a “dolarização” da economia imposta pelo pagamento da dívida externa, pela remessa de lucros das multinacionais e bancos estrangeiros, pelo controle dos monopólios do comércio exterior e pelas exigências que nos fazem os países imperialistas para sair da crise da economia mundial.

Para defender o peso são necessárias medidas muito mais de fundo, que, em nossa opinião, são as que apresentamos abaixo.

As medidas de fundo para defender o peso

A defesa da moeda nacional necessita das seguintes medidas de fundo:

• O não pagamento da fraudulenta dívida externa.
• Expropriação sem indenização e sob controle dos trabalhadores das multinacionais que controlam as estruturas fundamentais da produção agropecuária, mineradora, industrial e dos serviços.
• Estatização sob controle dos trabalhadores do sistema bancário, financeiro e do mercado de câmbios.
• Estatização sob controle operário do comércio comercio exterior.
• Ruptura de todos os pactos, como os Tratados Bilaterais de Investimento (TBI), que limitam a soberania argentina.

Estas mediadas permitiriam que se terminasse com o saque imperialista e assim recuperasse a soberania monetária.

Com o não pagamento da dívida externa e a expropriação dos monopólios que controlam a economia e sua estatização sob controle operário, terminaria o aumento dos preços pelas multinacionais que dominam o mercado interno e a emissão de pesos que o governo faz para comprar dólares para pagar a dívida externa, que são as duas principais causas da inflação.
Com estas medidas se acabaria também com a “dolarização”.  Ao tirar das multinacionais e dos bancos estrangeiros o controle da economia e terminar com sua remessa de lucros e com seu controle do comércio exterior, terminaria também com sua enorme demanda de dólares. O manejo das divisas para o comércio exterior ficaria exclusivamente nas mãos do Estado. E o peso ficaria como única moeda de circulação interna e de todas as operações econômicas e financeiras do país.
Para que estas medidas de fundo possam ser aplicadas, necessitamos da mais ampla unidade do movimento operário. Que todos os trabalhadores e suas organizações as assumam como próprias, exijam-nas do governo e façam parte da mobilização por salário, contra a precarização, por melhores condições de trabalho, por educação e saúde públicas e gratuitas.


Se não as adotarmos como próprias e não as unirmos ao conjunto de nossa luta, a crise da economia mundial que já entrou em nosso país, vai significar o mesmo que para os trabalhadores europeus: brutais planos de ajuste contra a classe operária e as massas trabalhadoras e bilhões de dólares para os grandes capitalistas dos bancos, das finanças, da indústria, do comércio, da agricultura e dos serviços.
Tradução: Suely Corvacho

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